As aldeias menos conhecidas da Meseta Ibérica que merecem uma visita
Entre o Parque Natural de Montesinho, o Douro Internacional e as Arribes del Duero, a Meseta Ibérica estende-se como um território de fronteira onde Portugal e Espanha se encontram em paisagens de penhascos, rios encaixados e povoações que resistem ao tempo. Em vez dos destinos óbvios, há um conjunto de aldeias discretas, de ambos os lados da linha, que quase não aparecem nos folhetos turísticos, mas que recompensam qualquer viajante curioso disposto a sair da estrada principal. Rio de Onor é talvez o melhor símbolo desta condição de fronteira. Atravessada por um pequeno rio e pela própria fronteira luso-espanhola, a aldeia vive em dupla identidade: de um lado é Rio de Onor, do outro Rihonor de Castilla. As casas de xisto e lousa alinham-se ao longo da água, e ainda sobrevivem traços fortes de organização comunitária, herdada de um modo de vida em que o forno, os campos e os rebanhos eram partilhados. Inserida em pleno Parque Natural de Montesinho, rodeada de carvalhais e castanheiros, é o tipo de lugar onde se caminha sem pressa, da rua principal até à ponte, deixando o olhar demorar-se no reflexo do casario no rio, antes de se terminar a visita com uma refeição simples numa tasca local. Um pouco mais adiante, no coração de Montesinho, surge Guadramil, aldeia de fim de estrada e princípio do silêncio. Pequena e isolada, mantém uma autenticidade quase intacta: casas de pedra escura, campos à volta, gado a pastar e um sossego que a má rede móvel ajuda a preservar. Guadramil foi também aldeia comunitária e guarda um falar próprio, o guadramilês, praticamente extinto. É um excelente refúgio para quem procura desligar, ponto de partida para trilhos por vales e encostas onde ainda se sente a presença discreta de cervos e do lobo ibérico, especialmente bela no outono, quando os carvalhais se tingem de dourado e cobre. A aldeia de Montesinho, que dá nome ao parque, ergue-se acima dos mil metros de altitude e tem ares de miradouro habitado. O casario de pedra e madeira, as varandas floridas e os lameiros verdes conferem-lhe um charme de aldeia de montanha bem cuidada. Daqui partem vários trilhos pedestres que ligam a outras povoações típicas, como França ou Portelo, atravessando um mosaico de pastagens, bosques e linhas de água. Para muitos viajantes, Montesinho é a base perfeita para alguns dias de caminhada, combinando natureza, gastronomia transmontana servida nos alojamentos rurais e noites frias com céu limpo, ideal para ver estrelas. Mais a leste, já a olhar para o Douro, encontramos Picote, ou Picuote em mirandês, no concelho de Miranda do Douro. Pequena e pedregosa, com arquitetura popular bem preservada, é uma aldeia onde a língua mirandesa ainda se escuta em conversas de café e à porta de casa. A poucos minutos do centro, as arribas do Douro erguem-se de forma abrupta, oferecendo miradouros de tirar o fôlego sobre o rio encaixado. Picote convida a um duplo passeio: primeiro pelas ruas estreitas e pelo adro da igreja, onde vigia um berrão em granito; depois pelos miradouros, sobretudo ao pôr-do-sol, quando a luz dourada se espalha pelos paredões de rocha. Mais abaixo no mapa, Bemposta, no concelho de Mogadouro, junta o caráter de antiga vila à força da paisagem do Douro Internacional. Ruas que revelam casas brasonadas, capelas e memórias de um pequeno castelo convivem com tradições vivas, como pauliteiros e figuras mascaradas em certas épocas do ano. Da aldeia, a estrada desce em curvas até à barragem e ao miradouro de Bemposta, de onde se observa o Douro a sulcar o planalto, comprimido entre arribas que parecem abrir-se subitamente no horizonte. É um daqueles locais onde a escala do rio e da rocha ajuda a relativizar o tamanhinho dos nossos problemas. Do lado espanhol, Fermoselle assenta num promontório granítico com vista privilegiada para o vale profundo do Douro, em pleno Parque Natural de Arribes del Duero. As ruas empedradas sobem e descem entre casas de pedra, pequenas praças e ermidas, enquanto o subsolo guarda um labirinto de caves escavadas na rocha, legado da forte tradição vinícola da terra. Integrada na Reserva da Biosfera Meseta Ibérica, Fermoselle é considerada um dos povoados mais bonitos da região e funciona como “varanda” para os canhões do Douro. À volta, uma paisagem de socalcos de oliveiras e vinhas prolonga a aldeia até ao limite dos precipícios e convida a passeios demorados entre miradouros e caminhos rurais. Um pouco mais a oeste, Pereña de la Ribera, na província de Salamanca, é muitas vezes apelidada de “balcón de Las Arribes”. O núcleo urbano é simples, mas a sua localização torna-o especial: a partir da ermida de Nuestra Señora del Castillo, construída num afloramento rochoso, abre-se uma vista impressionante sobre o Douro, que corre lá em baixo encaixado em canhões com centenas de metros de profundidade. Dali parte também o acesso a um dos locais mais surpreendentes da região, o Pozo de los Humos, uma cascata de cerca de cinquenta metros no rio Uces, afluente do Douro, que na época de maiores caudais enche o ar de espuma e neblina. Entre caminhadas, provas de mel, queijos e vinhos tintos locais, Pereña torna-se um bom exemplo de como a Meseta Ibérica transforma pequenos povoados em grandes miradouros. Explorar estas aldeias exige alguma autonomia: o carro é quase indispensável, especialmente do lado português, onde o transporte público é escasso. A melhor altura para visitar costuma ser a primavera, quando os rios correm cheios e os campos se enchem de flores, ou o outono, com as cores quentes e a luz baixa a dramatizar ainda mais as arribas. Em comum, todas partilham uma escala humana que pede respeito: são lugares pequenos, com gente que ali vive o ano inteiro. Viajar pela Meseta Ibérica, sobretudo por estas aldeias menos conhecidas, é também um convite a praticar um turismo mais lento e responsável – falar com as pessoas, comprar em negócios locais, levar o próprio lixo de volta, ficar um pouco mais do que só o tempo de tirar uma fotografia – e deixar que a fronteira entre visitante e vizinho fique, por momentos, tão difusa quanto a linha que separa Portugal de Espanha.








